DADOS
DE DESMATAMENTOS SERÃO ACOMPANHADOS POR MPF E MPE
08/11/2007
Repórter
Brasil
Convênio
assinado com o instituto de pesquisa Imazon
permitirá o repasse mais rápido e preciso de
informações georreferenciadas sobre focos de
desflorestamento
na Amazônia aos procuradores federais e estaduais do
PA
Os
procuradores do Ministério Público Federal (MPF)
e do Ministério Público Estadual (MPE) do Pará
passaram a ter, a partir desta quarta-feira (7), mais um instrumento
de controle do desmatamento da Amazônia. Por meio de
um convênio assinado com o Instituto do Homem e Meio
Ambiente da Amazônia (Imazon), eles receberão
dados georreferenciados sobre focos de desflorestamento com
muito mais celeridade e exatidão.
O
Sistema de Alerta de Desmatamento (SAD), desenvolvido pelo
Imazon processa imagens do sensor Modis - a bordo dos satélites
Terra e Acqua da Nasa, a agência aeroespacial norte-americana
-, apresenta informações específicas
como a intersecção com Áreas de Proteção
Ambiental (APAs) federal ou estadual, a localização
exata (latitude e longitude), a extensão e o município
em que ocorrem os chamados "polígonos" de
derrubada da floresta que ocupa 52% do território brasileiro.
A
partir desses dados, explica o procurador-chefe do MPF em
Belém, Felício Pontes Jr., será possível,
por exemplo, acionar imediatamente a Polícia Federral
e o Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais
Renováveis (Ibama) se a infração se der
em Unidades de Conservação (UCs), Terras Indígenas
(TIs) ou assentamentos do governo federal. Caso a área
desflorestada ilegalmente esteja sob a alçada estadual,
o MPE também poderá acionar a Secretaria do
Meio Ambiente do Pará (Sema) e a Polícia Militar.
"Podemos
constatar daqui a um ano que o desmatamento aumentou. Mas
se isso acontecer, pelo menos teremos dados mais práticos
que mostrarão a ineficácia do Estado brasileiro
para conter o desmatamento ilegal", declara. Segundo
Felício, a responsabilização dos governos
(federal e estadual) - inclusive por meio de processos - também
será facilitada com a implantação da
cooperação técnica.
Antes,
o MPF recebia autos de infração do Ibama apenas
depois das visitas do órgão às localidades
fiscalizadas. "Sempre que eu recebia um desses autos,
ficava imaginando quantas áreas estavam sendo de fato
devastadas enquanto apenas aquela representação
estava chegando às minhas mãos", conta
o procurador-chefe do MPF de Belém. Ele estima que
nem 20% do total de autos protocolados pelo Ibama chegava
ao Ministério Público. Antes, essas informações
não chegavam com a devida celeridade até os
procuradores. "Foram seis meses de trabalho, e agora
nós vamos saber primeiro e por cima, a partir do acompanhamento
das imagens por satélite".
De
acordo com o procurador-geral da Justiça do Pará,
Geraldo de Mendonça Rocha, que esteve presente no ato
de assinatura, o convênio com o Imazon pode "ampliar
as chances de efetivação do sistema jurídico"
e do controle e monitoramento ambiental por parte do Estado
e da sociedade. As normas, na visão do procurador-geral
que defendeu a utilização da "instrumentalidade
tecnológica", muitas vezes não bastam.
A
circulação de informações sobre
o desmatamento ajudará também no combate a outros
crimes, antevê Felício Pontes Jr. "Nossa
experiência mostra que existe uma associação
forte entre o crime ambiental e o trabalho escravo",
confirma. "Onde não há fiscal do Ibama
e efetivo policial, impera a lei do mais forte. E a lei do
mais forte é a dos fazendeiros, dos grileiros e dos
madereiros".
Ontem
e hoje
Até
2002, dados sobre o monitoramento da Amazônia eram divulgados
anualmente. Com a facilitação do acesso a informações
de satélites e a multiplicação de softwares
de compilação de dados e imagens, é possível
coletar dados georrefernciados sobre a floresta de dois em
dois dias. O tempo dispensado desde a captação
e processamento de imagens até a configuração
final das informações, no caso do SAD do Imazon,
compreende 16 dias.
Os
dados sobre desmatamento reunidos no Imazongeo passam por
um processo de auditoria e validação dentro
do próprio Imazon, com a finalidade de checar melhor
as informações com vistas a possíveis
instaurações de processos administrativos e
judiciários, antes de serem enviados ao MPF e ao MPE.
Nessa fase de checagem, as informações do sensor
Modis são comparadas às informações
do Landsat, sistema de monitoramento de maior precisão
por mais de um pesquisador, que pode dar prosseguimento ou
não a cada caso.
"São
mais de 90 áreas protegidas apenas no Pará.
O monitoramento permitirá entender a dinâmica
do desmatamento. E poderá contribuir para a antecipação
da perda de floresta e adoção de ações
de prevenção", prevê Adalberto Veríssimo,
do Imazon. A entidade de pesquisa também já
assinou termos de cooperação com as secretarias
de meio ambiente do Mato Grosso e do Pará e fornece
informações para o planejamento territorial
deses estados.
O
pesquisador do Imazon lembra que 54% do território
paraense são compostos de áreas protegidas -
Unidades de Conservação (UCs), Terras Indígenas
(TIs), etc. "Estamos dando foco nas APAs, onde o desmatamento
atinge o extremo da ilegalidade", especifica.
Números
do relatório de transparência florestal do Estado
do Pará elaborado pelo Imazon de agosto de 2007 revelaram
uma concentração dos desmatamentos (65% dos
casos no mês) em APAs. O desflorestamento ilegal em
TIs somaram 38,3%; nas UCs, chegaram a 26,3%. "A intensificação
do desmatamento em Áreas Protegidas é um fenômeno
que se intendificou no último ano. O governo federal
criou recentemente Unidades de Conservação (UCs)
em área de conflito, como na Terra do Meio. Inicialmente,
isso inibiu a destruição da floresta. Contudo,
temos visto agora um aumento do desmatamento em áreas
protegidas, principalmente nas áreas de influência
da BR-163 (Cuiabá-Santarém)", analisa Adalberto,
do Imazon. |