Um
novo modelo para a Amazônia
31/10/2007
Amazonia.org.br
Ignacy
Sachs é conhecido como um "ecossocioeconomista"
por sua concepção de desenvolvimento como uma
combinação de crescimento econômico, aumento
igualitário do bem-estar social e preservação
ambiental. Nascido na Polônia, graduou-se em Economia
no Rio de Janeiro, fez doutorado na Índia e foi morar
em Paris, onde se naturalizou cidadão francês.
Foi pesquisador do Instituto de Relações Internacionais
na Polônia e tornou-se, em 1957, Secretário para
Cooperação Científica e Técnica
da embaixada polonesa na Índia.
Em
1968 foi convidado por Fernand Braudel para integrar o corpo
docente da hoje École des Hautes Études en Sciences
Sociales (EHESS), onde criou, em 1985, o Centre de recherches
sur le Brésil contemporain (Centro de Pesquisas sobre
o Brasil Contemporâneo), do qual é atualmente
co-diretor.
Trabalhou
na organização da Primeira Conferência
de Meio Ambiente e Desenvolvimento da ONU, realizada em Estocolmo,
Suécia, em 1972, durante a qual foi criado o Programa
das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA).
Foi
também conselheiro especial da Conferência das
Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento,
realizada no Rio de Janeiro em 1992.
Sachs visitou esta semana a redação do Amazonia.org.br
e conversou sobre desenvolvimento sustentável e Amazônia.
Abaixo os principais trechos da entrevista.
Desenvolvimento
Sustentável
"O conceito vem sendo criado desde a conferência
das Nações Unidas para o Meio Ambiente, Estocolmo,
no ano de 1972. Já estava claro naquela época
que a sustentabilidade não deveria ser apenas ambiental,
mas também social. Antes de tudo é um princípio
de solidariedade com as gerações futuras. Naquela
época cunhamos o conceito de eco-desenvolvimento."
"A
viabilidade econômica é apenas um instrumento
do tripé. Para atingir o desenvolvimento sustentável
será necessário um pacto entre o Estado, os
empresários, os trabalhadores e a sociedade civil organizada."
"No
período 1945-75, tivemos alto desenvolvimento econômico
e social, mas destruindo o meio ambiente. Também é
possível ter crescimento econômico e proteção
ambiental, a despeito de não haver geração
de empregos. Hoje, no Brasil, temos um déficit crônico
de trabalho decente."
"O
termo desenvolvimento sustentável foi apropriado pelos
atores econômicos e acabou reduzido ao crescimento econômico.
Para que ele seja efetivamente contemplado é preciso
haver desenvolvimento econômico, ambiental e social."
Consumo
X Produção
"A equação do desenvolvimento sustentável
deve começar a ser alterada pelos padrões de
demanda e consumo. Temos de fazer oposição a
um mimetismo corrente. Não podemos pensar que haja
um modelo de sustentabilidade único, possível
de ser implementado em todas as regiões do mundo. Mesmo
no Brasil, o padrão de consumo em São Paulo
não é aplicável ao interior do Amazonas,
por exemplo. O padrão de consumo deve ser adaptável
às especificidades de cada lugar."
"Também
é necessário mudar os padrões da oferta
e uso dos recursos naturais e econômicos. Isso inclui
redesenhar as cidades, melhorar o uso dos transportes, da
geração, fornecimento, e aproveitamento energético,
criação de novas tecnologias. O último
aspecto a ser considerado, são as correções
no plano ambiental, no sentido de reverter ou mitigar danos
já acontecidos."
Amazônia
"Há duas distorções graves quando
pensamos na Amazônia. A primeira delas é pensar
a região como um problema e não como uma solução.
A segunda é ver a região como mera reguladora
do clima do planeta em vez de pensar nela como a terra dos
povos amazônicos."
"Lá
pode estar o nascedouro de uma civilização baseada
na energia da biomassa. Da energia gerada por fotossíntese
podemos conseguir alimentos, combustíveis, química
verde, fármacos e cosméticos."
"Precisamos
de investimento massivo em conhecimento e na qualificação
da mão-de-obra. Em contrapartida, os recursos naturais
devem ser usados de maneira eficiente, pois eles são
limitados. No caso do Brasil, mais ainda, pois aqui os recursos
financeiros são limitados também."
"É
possível desenvolver sem desmatar. A área já
derrubada é equivalente ao território da França
- 600 mil km2 - e seria possível desenvolver uma população
três vezes maior do que a população amazônica
atual. Mas para que isso aconteça é preciso
rever o modelo de desenvolvimento adotado para a região.
A integração na economia globalizada é
feita de modo invertido. Trouxemos a indústria eletrônica
japonesa para cá, quando deveríamos ter propiciado
desenvolvimento para os produtos locais."
Reservas
"Temos que criar Reservas de Desenvolvimento Sustentável
para recuperar e explorar de forma manejada as áreas
já desmatadas. Uma maneira de viabilizar esse manejo
seria com agricultura consorciada e reflorestamento produtivo.
Para obter resultados seria necessário conjugar três
fatores: zoneamento ecológico e econômico (ZEE),
certificação dos produtos e discriminação
positiva dos pequenos produtores."
"Considero
exagerado manter o percentual de 80% de reserva legal na região,
além de criar uma unidade de conservação
atrás da outra. É fácil criar essas reservas
no papel e depois não ter condições de
fiscalizar o território"
"O
maior risco para a Amazônia é a monocultura.
O país já teve experiências danosas com
esse modelo desde o período colonial. Pode ser feita
uma exploração até mesmo com o plantio
de espécies exóticas, consorciadas com outras
culturas. A idéia é ter sistemas integrados
de produção de alimentos e energia."
Reforma
agrária
"Reforma agrária não pode se restringir
a distribuir terra. É preciso repassar conhecimento,
estruturas, facilitar o acesso aos mercados e ao financiamento
ao pequeno agricultor. O imposto territorial deveria ser progressivo
em relação ao tamanho e ao tempo de propriedade.
Isso forçaria a produtividade nessas terras e ajudaria
os pequenos produtores."
Expansão
da cana
"O cultivo da cana no Pantanal seria extremamente danoso.
Para outras regiões, há necessidade de se avaliar
caso a caso. Por que não plantar a cana em regiões
como no cerrado de Roraima? Com o zoneamento econômico
e ecológico poderia ser viável. É mais
importante discutir o regime social e ambiental dessa produção
do que em qual região do país esse cultivo será
efetuado." |