METRÓPOLES
CONTRA O AQUECIMENTO
23/08/2007
Agência FAPESP
As
maiores cidades do mundo precisam se unir para diminuir, com
urgência, o uso de energia nas áreas urbanas,
de acordo com o norte-americano Ira Magaziner, diretor da
Iniciativa de Mudanças Climáticas da Fundação
Clinton.
Na
palestra de abertura da 6ª Conferência Municipal
de Produção Mais Limpa de São Paulo,
realizada nesta quarta-feira (22/8), Magaziner destacou que
as cidades são responsáveis por 75% da energia
consumida no planeta e que, nas 40 maiores metrópoles,
de 35% a 50% da energia é desperdiçada por ineficiência
das edificações.
“É
importante que países como Estados Unidos, China e
Austrália mudem de posição e ratifiquem
o Protocolo de Kyoto, mas um compromisso de redução
de emissões não resolverá o problema
do aquecimento global se não começarmos a mudar
nossos padrões de eficiência energética”,
disse Magaziner, que foi por seis anos conselheiro para desenvolvimento
de políticas da presidência norte-americana durante
o governo Bill Clinton.
De
acordo com Magaziner, nas 40 maiores cidades do planeta, de
35% a 50% do total de energia consumida pelos edifícios
é gasta com ar-condicionado e com luzes ligadas sem
necessidade.
“As
cidades são tremendamente ineficientes e lutar contra
isso requer vontade política e organização
prática. Além da energia elétrica, os
sistemas de água também têm perdas de
35% com vazamentos, inclusive em cidades como Londres ou Paris”,
afirmou.
União das megacidades
Ira
Magaziner lembrou que São Paulo faz parte do Grupo
de Liderança Climática das Grandes Cidades,
conhecido como C-40. Criado no fim de 2005, o grupo reúne
as 40 maiores cidades do mundo com o objetivo de unir forças
para combater o aquecimento global.
Em
2006, o C-40 fechou parceria com a Fundação
Clinton, que se encarregou de assessorar uma série
de ações visando a acelerar as reduções
de emissões de gases de efeito estufa. Hoje, metade
da população mundial vive em cidades.
“Essa
cooperação é fundamental. Lançamos
um programa de eficiência energética em edifícios.
Estimulamos a criação, pelas cidades, de códigos
de construção que só permitam novas edificações
dentro de padrões de eficiência energética”,
disse.
Mas,
de acordo com Magaziner, não basta limitar a eficiência
aos prédios novos: é fundamental uma ação
retroativa nos prédios antigos, incentivando mudanças
que melhorem a iluminação e ventilação
naturais e automatizem sistemas de ar-condicionado e de iluminação.
“Procuramos
garantir ao proprietário dos prédios um retorno
financeiro com base na melhor performance energética
do edifício. Para isso, estabelecemos parcerias com
alguns dos maiores bancos e empresas de energia. Os proprietários
são estimulados a aderir quando não precisam
investir do próprio bolso, por isso o programa é
sustentável”, afirmou.
Necessidade de adaptação
Também
presente na abertura da Conferência Municipal de Produção
Mais Limpa, o meteorologista Carlos Nobre, do Instituto Nacional
de Pesquisas Espaciais, foi categórico ao afirmar que
não é mais possível reverter o aquecimento
global.
“Podemos
reduzir seu impacto a ponto de evitar uma catástrofe
se conseguirmos, com grande esforço, reduzir de 60%
a 70% das emissões globais. No cenário mais
otimista, podemos estabilizar o aquecimento entre 2ºC
e 3ºC”, disse.
Para
Nobre, a melhora da eficiência energética poderá
reduzir, no máximo, 10% das emissões. “Temos
que reduzir emissões, mas é ainda mais importante,
no Brasil, saber o que fazer para nos adaptarmos às
mudanças climáticas que virão. Este é
um país desigual, com altos índices de pobreza
e que, por isso, está entre os mais vulneráveis
às mudanças, principalmente nas grandes cidades”,
disse.
Segundo
Nobre, o Brasil poderá vir a ser uma potência
ambiental. “Para isso, a cidade de São Paulo
deve dar o exemplo e liderar o processo, tornando-se uma das
megacidades com menor emissão per capita do mundo,
ao mesmo tempo que aumenta a capacidade de adaptação
de seus habitantes às mudanças climáticas”,
destacou.
Para
reduzir as emissões urbanas, Nobre recomenda também
a redução de densidade de construções,
a mudança de altitude das edificações,
o aumento de ventilação natural nos prédios,
a criação de sombras na cidade – com mais
árvores e vegetação – e o uso de
materiais de alto poder de reflexão nas edificações.
“Será
preciso ainda fazer restrições ao tráfego
de veículos e melhorar a infra-estrutura de recursos
hídricos, reduzindo vazamentos e criando sistemas de
aviso de risco de enchentes e deslizamentos. Mas, para nos
adaptarmos às mudanças, será fundamental
que tenhamos investimentos em estudos sobre as vulnerabilidades”,
afirmou. |