FAZENDEIROS
E POLÍTICOS EXPULSAM OPAN, GREENPEACE E JORNALISTAS
DE JUÍNA (MT)
24/08/2007
CIMI - Conselho
Indigenista Missionário
O
Greenpeace e a organização indigenista Opan
(Operação Amazônia Nativa) pediram hoje
(22 de agosto) ao Ministério Público Federal
a apuração dos graves incidentes ocorridos há
dois dias em Juína, no Mato Grosso, que resultaram
na expulsão, por fazendeiros, de um grupo de representantes
da Opan, ativistas do Greenpeace e dois jornalistas franceses.
Entre os ambientalistas estava o coordenador do Greenpeace
na Amazônia, Paulo Adario.
Cópias
de duas horas de imagens em vídeo documentando ameaças,
ofensas e o processo de expulsão do grupo foram entregues
agora à tarde ao Procurador Federal da República
em Mato Grosso, Mário Lúcio Avelar. Pela manhã,
Adario fez um pronunciamento sobre o assunto durante reunião
especial do Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama) que
se realiza em Cuiabá, e pediu providências das
autoridades estaduais e federais. Ontem, durante a abertura
da reunião, o governador Blairo Maggi anunciou que
irá pedir a presença do Exército para
enfrentar a grilagem e garantir a ordem no noroeste do estado,
onde está Juína. O governo do estado havia sido
informado no dia anterior que o Greenpeace, a Opan e jornalistas
estavam praticamente mantidos como reféns num hotel
da cidade, cercados por quase uma centena de fazendeiros.
“Ao
mesmo tempo em que o governo celebra e assume o mérito
pela queda das taxas de desmatamento na Amazônia, o
episódio em Juína mostra que sua presença
ou é rala ou ainda está muito longe daqui”,
disse Paulo Adário, coordenador da campanha da Amazônia
do Greenpeace, que fazia parte do grupo. “É inaceitável
que fazendeiros, com o apoio de autoridades locais, cerceiem
a liberdade que todo cidadão tem de ir e vir e revoguem
a Lei de Imprensa, cassando o direito de jornalistas exercerem
sua profissão com segurança”.
O
grupo do Greenpeace, da Opan e os jornalistas franceses foram
expulsos por fazendeiros na segunda-feira pela manhã
(20/08), depois de ser mantido durante toda a noite sob vigilância
em um hotel da cidade. O grupo de nove pessoas estava de passagem
por Juína e seguia em direção à
terra indígena Enawene-Nawe. O objetivo da viagem era
documentar áreas recém-desmatadas, além
de mostrar a convivência de um povo indígena
que vive de agricultura e pesca com a floresta e seu papel
em preservar a biodiversidade.
No
final da tarde de domingo, fazendeiros abordaram integrantes
das duas organizações no hotel onde estavam
hospedados, querendo saber quem eram e o que estavam fazendo
em Juína. A área onde está localizada
a terra indígena está em disputa entre os Enawene
Nawe e os fazendeiros e expressa o conflito da expansão
agrícola sobre áreas protegidas e territórios
de povos indígenas.
Os
índios reivindicam a reintegração de
parte do território tradicional que teria ficado de
fora da demarcação e que contém uma área
de pesca cerimonial, fundamental nos rituais sagrados dos
Enawene. Os fazendeiros, por sua vez, alegam que a terra é
deles e estão dispostos a lutar para mantê-las.
Eles se mostraram muito irritados quando souberam que jornalistas
integravam o grupo que estava no hotel.
Na
manhã seguinte, o local foi cercado por dezenas de
fazendeiros e o presidente da Câmara Municipal, vereador
Francisco Pedroso, o Chicão (DEM), que exigiam esclarecimento
sobre os objetivos dos visitantes. O grupo foi levado à
Câmara Municipal, onde uma sessão especial foi
rapidamente organizada. Estavam presentes o prefeito da cidade,
Hilton Campos (PR), o presidente da Câmara, o presidente
da OAB, o presidente da Associação dos Produtores
Rurais da região do Rio Preto(Aprurp), Aderval Bento,
vários vereadores e mais de 50 fazendeiros. E também
a polícia. Durante seis horas, os fazendeiros e repetiram
que a entrada do grupo na terra Enawene Nawe não seria
permitida e que seria “perigoso” insistir na viagem.
Esmurrando a mesa, o prefeito de Juína, Hilton Campos,
afirmou que não iria permitir a ida do grupo para o
Rio Preto, sendo aplaudido fervorosamente pelos colegas fazendeiros.
Para
evitar maiores conflitos, a viagem foi cancelada. O grupo,
então, se dirigiu ao local de encontro com os Enawene,
uma ponte sobre o Rio Preto, a 60 km de distância, para
dar a eles combustível e comida para a volta. A viagem
foi feita sob escolta policial, para garantir a segurança
dos jornalistas, da Opan e do Greenpeace. Mas nem isso evitou
que os fazendeiros, que acompanharam a viagem de ida e volta
em 8 oito caminhonetes lotadas, continuassem intimidando e
ameaçando o grupo. O grupo se refugiou no hotel de
onde não pôde sair nem para comer. Uma viatura
da Polícia Militar ficou na área, para impedir
qualquer tentativa de invasão, mas não conseguiu
impedir que um fotógrafo fosse agredido. Os fazendeiros
fizeram uma vigília na frente do hotel durante toda
a noite.
De
manhã cedo, 30 caminhonetes lotadas de fazendeiros,
com faróis acessos a buzinando sem parar, insultando
e ameaçando o grupo, escoltaram o grupo, que estava
protegido por duas viaturas policiais, até o aeroporto.Foram
advertidos a decolar imediatamente, ou o avião seria
queimado. No momento, todos se encontram em segurança
em Cuiabá. |