DECLARAÇÃO
DOS DIREITOS INDÍGENAS: UMA CONQUISTA HISTÓRICA
17/09/2007
Fonte:
Amazonia.org.br
Após mais de vinte anos de negociações,
a Assembléia Geral adota o documento, primeiro instrumento
jurídico universal a afirmar o direito desses povos
A
Declaração Internacional dos Direitos Indígenas
foi aprovada nesta quinta-feira (13), na sexagésima
primeira sessão da Assembléia Geral da Organização
das Nações Unidas (ONU).
Apresentada
pelo Peru, a resolução que adota a declaração
foi homologada por 143 votos contra 4 (Austrália, Canadá,
Estados-Unidos e Nova Zelândia) e 11 abstenções
(Colômbia, Azerbaijão, Bangladesh, Geórgia,
Burundi, Rússia, Samoa, Nigéria,Ucrânia,
Butão e Quênia).
O
texto inicial já havia sido adotado em 29 de junho
do ano passado, no Conselho de Direitos Humanos da Organização.
"Acompanhamos ao longo dos anos essa discussão,
que foi demorada, mas que se consolidou numa das conquistas
mais históricas do movimento indígena internacional
e nacional", comemora Jecinaldo Sateré, coordenador
da COIAB (Coordenação das Organizações
Indígenas da Amazônia Brasileira).
O
líder indígena brasileiro diz que a adoção
da Declaração representa um avanço, mas
que ainda há muito a enfrentar dentro do próprio
país para fazer valer o texto: "apesar do Ministério
das Relações Exteriores e o Itamaraty terem
se posicionado a favor, setores mais conservadores do governo,
como o Ministério da Defesa, são contrários
à luta territorial, ao controle dos recursos naturais
e à autonomia dos povos indígenas. É
um ponto que deve ser superado".
Direitos
Além de proibir a discriminação e reconhecer
os direitos culturais dos povos indígenas, a Declaração
afirma seu direito à auto-determinação
- a autonomia e a administração de suas questões
internas -, bem como o direito de dispor de meios de financiamento
próprios para suas atividades.
O
texto estipula que os povos indígenas são livres
para reforçar e manter suas instituições
políticas, jurídicas, econômicas e sociais,
além de, se assim o quiser, participar plenamente da
vida política econômica e cultural do Estado.
Uma
das questões centrais da Declaração é
assegurar o direito dos povos a suas terras e recursos ancestrais.
Desta maneira, cabe aos Estados reconhecer e oferecer proteção
jurídica a esses bens.
Os
povos indígenas possuem igualmente direito à
reparação, que pode ser feita em forma de territórios
e recursos equivalentes.
A
Declaração afirma o direito dos povos indígenas
de praticar suas tradições, costumes e ritos
religiosos e espirituais; a reavivar, utilizar, desenvolver
e transmitir às futuras gerações sua
história, língua, suas tradições
orais, seus sistemas de escrita e sua literatura. De acordo
com o texto, eles têm, também, o direito de estabelecer
e controlar seus próprios sistemas escolares.
Longo
caminho
O Canadá, a Nova Zelândia e os Estados Unidos
se pronunciaram em nome dos países que votaram contra
o texto. Eles se declararam "preocupados" com alguns
dispositivos relativos à terra e aos recursos naturais,
assim como o direito à indenização. Esses
Estados temem a formação de "nações
indígenas" dentro de seus territórios.
Os
países que se pronunciaram a favor da Declaração,
no entanto, não vêem a autodeterminação
como uma ameaça aos Estados. Como se trata de um instrumento
jurídico não obrigatório, as disposições
devem ser examinadas de acordo com as especificidades da legislação
de cada país.
Na
sessão que aprovou a resolução, a presidente
da sexagésima primeira Assembléia Geral da ONU,
Sheika Haya Rashed Al Khalifa, lembrou que um longo caminho
foi percorrido desde 1992, data em que as Nações
Unidas haviam aberto as portas aos povos indígenas
com uma cerimônia que marcou o "Ano Internacional
dos povos indígenas". Em 1995, foi declarado o
Decênio Internacional dos Povos Indígenas, que
seria dedicado à aprovação da Declaração.
Passados
os dez anos e sem a adoção do documento, lideranças
indígenas fizeram greve de fome em frente ao prédio
da ONU como forma de pressão. A Assembléia Geral
proclamou, em 2006, o Segundo Decêncio, que se estende
até 2014.
Sheika
Haya Rashed Al Khalifa, lembra que, apesar dos avanços,
os povos indígenas conhecem ainda a marginalização,
a extrema pobreza e outras violações de seus
direitos como a falta de acesso à saúde e educação.
"Nós não devemos, entretanto, fazer os
povos indígenas de vítimas, e sim reconhecer
suas contribuições", afirmou em nota lida
na solenidade. Para ela, o texto, fruto de mais de 20 anos
de negociações, não pode ser subestimado.
Desafios
para o futuro
"Lançamos um chamado aos governos, ao sistema
da ONU, aos povos indígenas e à sociedade civil
para que se mostrem à altura da tarefa histórica
que nos aguarda e façam da Declaração
das Nações Unidas dos Direitos dos Povos Indígenas
um documento essencial para o futuro da humanidade",
declarou Victoria Tauli-Corpuz, presidente do Grupo Permanente
de Questões Indígenas, na sessão informal
que seguiu à adoção do documento.
"A
etapa atingida hoje com a adoção dessa Declaração
permitirá que eles possam dar sua contribuição
nesse momento em que pesam as ameaças de mudanças
climáticas e perda da biodiersidade", comemorou
David Choquehuanca, ministro das relações exteriores
da Bolívia e um dos co-autores do texto, na mesma ocasião.
Jose
Alberto Briz-Gutiérrez, da Guatemala, apontou que o
mais importante desse processo é que os povos indígenas
dispõem, hoje, de um instrumento equilibrado e útil
para defender suas reivindicações. "Seria
certamente melhor que o texto fosse adotado por consenso.
Foi necessário trazer emendas à versão
apresentada ao Conselho de Direitos Humanos para que ele pudesse
ter o maior apoio possível", afirmou.
No
Brasil, Jecinaldo Sateré ressalta que o debate foi
unificador e que a sua aprovação é resultado
do empenho do movimento indígena como um todo: "estamos
lutando pelos nossos direitos, nossa dignadade, que foram
roubados por anos das populações indígenas.
Queremos trilhar um caminho diferente do da colonização.
Nosso debate perante o governo brasileiro vai se apoiar nessa
declaração pra fazer com que as nossas leis
não fiquem apenas no papel". |