MENOS
INTENSO, DESMATAMENTO SE CONCENTRA
EM PONTOS ISOLADOS
16/08/2007
Repórter
Brasil
Menos intenso, desmatamento se concentra em pontos isolados
Mapa do desmatamento evidencia nova dinâmica marcada
por frentes menores e difusas, como no Amazonas e em Roraima.
Queda do preço de produtos primários ajuda a
explicar desaceleração do desflorestamento
Entre
agosto de 2005 e julho de 2006, cerca de 14 mil km2 de floresta
foram desmatados na Amazônia Legal, uma queda de 25%
em relação à área de floresta
derrubada no mesmo período de 2004 para 2005. Os dados
anuais consolidados pelo Projeto de Monitoramento do Desflorestamento
na Amazônia (Prodes), do Instituto Nacional de Pesquisas
Espaciais (Inpe), foram divulgados na última sexta-feira
(10) pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA). Na avaliação
do Executivo federal, os resultados são conseqüências
"de uma política corajosa e estruturante"
que tomou como base três ações principais:
a criação de Unidades de Conservação
(UCs), o combate à grilagem de terras públicas
e o trabalho de fiscalização. Na avaliação
de representantes de organizações não-governamentais
(ONGs), no entanto, existem outros fatores que podem ajudar
na explicar os números apresentados pelo governo.
Os
dados mostram uma redução de 60% da área
desmatada de 2005/2006 nos 20 municípios que haviam
sido recordistas na pesquisa anterior de 2004/2005 (confira
as localidades destacadas em amarelo no mapa abaixo). O ritmo
de desflorestamento caiu em sete estados da Amazônia
Legal no mesmo período; houve aumento da área
devastada neste mesmo período apenas no Amazonas e
em Roraima. Assim, Lábrea (AM), no Sul do Estado do
Amazonas, e outros municípios que ocupam a região
que fica próxima à capital Boa Vista (RR) estão
na lista dos que apresentaram maior aumento de área
desmatada (veja as áreas pintadas de vermelho no mapa
abaixo).
De
acordo com o coordenador do núcleo de Amazônia
da secretaria executiva do MMA, André Lima, a intensificação
do desmatamento em Roraima está relacionada ao deslocamento
de produtores de arroz do estado. "A expulsão
dos arrozeiros [da Terra Indígena Raposa/Serra do Sol,
homologada em abril de 2005] levou a uma abertura de novas
áreas".
Um
dos coordenadores da campanha Amazônia da ONG Greenpeace,
engenheiro florestal Marcelo Marquezini identifica uma migração
do movimento de grilagem. "Os grileiros estão
pensando lá na frente, em qual terra pública
pode ser grilada hoje. Essas áreas desmatadas passam
à condição de fazenda de soja ou de gado
depois".
Roberto
Smeraldi, diretor da ONG Amigos da Terra - Amazônia
Brasileira, acrescenta que a dinâmica de avanço
do desmatamento está mudando. "Antes, a tendência
de avanço do desmatamento era mais homogênea
em relação a grandes fronteiras [agrícolas].
Hoje, há o que chamamos ‘vazamento’, fenômenos
localizados, com grandes inversões de tendências.
É um comportamento mais fragmentado e difuso",
define.
Esse
movimento de desmatamento não pode ser concebido, porém,
como um fenômeno "avulso", adverte Roberto.
Existe uma previsibilidade de ocorrência dessas frentes,
que obedecem a especulações de natureza local,
como uma promessa de pavimentação ou o lançamento
de grandes obras de infra-estrutura. Corrobora para esse fenômeno
de previsibilidade a ampliação da malha de "pequenas
estradas pioneiras" ilegais, abertas pelas madeireiras,
"que quase sempre trazem como conseqüência
muito desmatamento".
Fator
econômico A área de 14.039 km2 é o menor
desflorestamento registrado desde 1988, quando o Inpe começou
a fazer o monitoramento dos dados por satélites. Desde
o lançamento do Plano de Ação para a
Prevenção e Controle do Desmatamento da Amazônia
(PPCDAM) pelo governo federal, em 2004, o índice caiu
49%, segundo o MMA.
"É
a terceira queda do índice de desmatamento em três
anos. Muita coisa levou a isso, inclusive uma melhor fiscalização",
considera Marcelo, do Greenpeace. "Mas o governo não
cogita o preço baixo de commodities (produtos primários
padronizados com preço definido pelo mercado internacional)
como boi e soja, que fazem pressão sobre a floresta".
Ele explica que, entre 2004 e 2005, houve queda dos preços
dessas commodities e, na pesquisa que compreende de de agosto
de 2005 a julho de 2006, o desmatamento diminuiu. "Agora
os preços estão subindo de novo... O que ninguém
consegue determinar é o peso da influência desse
fator", completa.
Roberto
Smeraldi frisa a necessidade de se analisar em especial o
Estado do Mato Grosso, que apresentou uma queda de 7.145 km2
para 4.333 km2 devastados e contribuiu sobremaneira para a
queda total do índice. "Nas medições
de 2001/2002, 2002/2003 e 2003/2004, mais de 30 mil km2 de
floresta [Amazônica] foram desmatados, mais outros tantos
de Cerrado". Nas contas dele, algo em torno de 50 e 60
mil km2 de novas áreas foram disponibilizadas para
a agricultura e a pecuária de 2001 a 2004. "É
uma Bélgica inteira a mais de áreas convertidas
para a agropecuária".
O
desmatamento registrado à época no Mato Grosso,
de acordo com o diretor da Amigos da Terra, se deve ao anúncio
de investimentos como o asfaltamento da BR-163, a Cuiabá-Santarém,
e de trechos da BR-158, que liga Santana do Livramento (RS)
a Altamira (PA). "As expectativas não se concretizaram.
Isso coincidiu com a crise súbita dos grãos,
que fez com que a área plantada diminuísse.
Então, quem desmatou [durante o intervalo de 2005 a
2006], tinha que ter boas razões para isso, porque
já havia muita oferta de terra [desmatada]", expõe.
Para
André Lima, do MMA, a importância da redução
específica no Mato Grosso precisa ser relativizada.
Segundo o representante do governo, há um conjunto
de fatores que se aplicam de forma distinta nas diferentes
regiões do próprio estado. "Os municípios
[no MT] têm várias culturas, como soja, algodão
e pecuária, que estão sob influências
diferentes", observa.
Ações
governamentais A redução de 25% no desmatamento
da Amazônia Legal foi uma conseqüência, do
ponto de vista governamental, de três ações
principais. O primeiro deles foi a criação de
novas Ucs. "Esse foi um dos motivos mais estruturantes,
que contribui para a queda a longo prazo", qualifica
André. O segundo motivo foi o combate à grilagem,
com diversas iniciativas na regularização de
terras. De acordo com o ministério, mais de 66 mil
imóveis foram recuperados pela União. E o terceiro
ponto a ser destacado foi a fiscalização. Entre
os 20 municípios que mais perderam floresta de 2004
para 2005 (áreas amarelas do mapa acima), 18 estão
entre os que mais reduziram seu desmatamento entre 2006 e
2007. "Os municípios [que mais desmataram] são
priorizados na estratégia de fiscalização
do Ibama"
Marcelo
Marquezini, do Greenpeace, elogia as iniciativas de combate
à grilagem de documentos e avalia que a fiscalização
melhorou, mas continua insuficiente. "Dos 14 mil polígonos
de desmatamento identificados, o governo multou menos de 40%,
o que dá pouco mais de cinco mil multas". Como
exemplo, ele cita o sul do Estado do Amazonas, que estava
no Plano [PPCDAM], "mas não foi uma das regiões
priorizadas na prática".
Por
outro lado, o ativista do Greenpeace avalia que a regularização
fundiária está excessivamente lenta. "Estimativas
de gente do próprio Incra [Instituto Nacional de Colonização
e Reforma Agrária] é de 30 anos para conseguir
regularizar isso... Não podemos esperar esse tempo
todo", critica. Ele acrescenta que o setor de fomento
a atividades produtivas sustentáveis também
é deficiente: apesar de ter contribuído na criação
de Projetos de Desenvolvimento Sustentável (PDSs),
Assentamentos Agroextrativistas (PAEs) e Florestais (PAFs),
o governo não deu assistência às unidades
criadas. "Alguns PDSs estão fazendo consórcio
com madeireiras: em troca de asfaltamento de terra e serviços
básicos, as empresas pegam madeira em pé",
denuncia Marcelo.
Para
Smeraldi, "a principal contribuição do
governo foi a ineficiência do Departamento Nacional
de Infra-estrutura de Transportes [DNIT]". Ele prevê
que, se as promessas de asfaltamento de rodovias federais
tivessem sido cumpridas, haveria aumento da perda de cobertura
florestal - e não a diminuição atestada
pelas pesquisas do Inpe. "A especulação
a partir da expectativa das obras do Rio Madeira [em Rondônia],
por exemplo, já está acontecendo. Isso vai levar
um monte de gente para lá, mesmo que a obra não
se concretize."
O
governo pretende ampliar as ações de fomento,
como crédito para iniciativas de desenvolvimento sustentável.
"Precisamos de mais ações de fundo para
estabilizar uma alternativa para a região", diagnostica
André, do MMA. O ministério também pretende
envolver mais setores do governo nas medidas já previstas
no plano de combate ao desmatamento da Amazônia. "O
MDA [Ministério do Desenvolvimento Agrário],
por exemplo, é um parceiro importante para implementar
o projeto de agricultura em áreas degradadas",
explica o coordenador do núcleo Amazônia. Outro
objetivo é envolver mais os governos estaduais como
parceiros, "assumindo compromissos com uma agenda concreta
para acabar com o desmatamento".
É
preciso um envolvimento real dos 13 ministérios inicialmente
convocados para o plano de combate ao desmatamento e não
uma disputa entre o incentivo a determinadas atividades econômicas
e a sustentabilidade da floresta, recomenda Marcelo, do Greenpeace.
"O que não pode é ficar a briga entre governo
e governo, com setores como o Mapa [Ministério da Agricultura,
Pecuária e Abastecimento] socorrendo sojeiros",
critica. |