DESMATAMENTO
AQUECE AMAZÔNIA EM ATÉ 4ºC, DIZ INPE
31/08/2007
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Horas News
Uma
das perguntas que mais tiram o sono dos estudiosos da Amazônia
é quanto desmatamento precisa ocorrer para que o clima
local mude. Pelo menos para uma região da floresta,
cientistas brasileiros acreditam já ter uma resposta:
40%.
Substituir
esse total de mata nativa por soja ou pasto pode causar aumentos
de temperatura de até 4ºC e uma redução
de até 24% nas chuvas durante a estação
seca na porção leste do território amazônico.
A
área em questão abarca Pará, Amapá,
Roraima, Maranhão, Tocantins e um pedaço do
Amazonas. Trata-se da metade naturalmente mais seca dos 5
milhões de quilômetros quadrados da Amazônia
Legal. E também uma das mais desmatadas: de 18% a 20%
das florestas ali já cederam lugar à agropecuária,
contra 15% da média amazônica total.
A
conclusão é de um estudo feito pelo Inpe (Instituto
Nacional de Pesquisas Espaciais), com participação
de pesquisadores das universidades federais de Minas Gerais
e de Viçosa. O trabalho, que será publicado
em setembro no periódico "Geophysical Research
Letters", cruza pela primeira vez modelos climáticos
computacionais com cenários realistas de desmatamento.
Ele
aponta que, além do aquecimento global, a destruição
da floresta também pode levar à chamada savanização,
processo no qual o clima quente e úmido típico
da Amazônia dá lugar a um clima quente e seco
característico do cerrado. Nesse clima, a vegetação
densa da floresta tropical não sobrevive --e cede lugar
à savana.
O
conceito de savanização foi proposto em 2003
por Marcos Oyama e Carlos Nobre, do Inpe. Com base em modelos
que uniam clima e vegetação, eles estimaram
que o aumento da concentração de gases-estufa
poderia levar a floresta a um novo "estado de equilíbrio".
Os
cientistas sabiam que o desmatamento também tem potencial
"savanizante". Isso porque o clima na Amazônia
depende das árvores, que regulam a umidade e a quantidade
de luz solar que chega ao solo. Quanto menos floresta, em
tese, mais quente e seca será a região.
Só
que até agora uma questão permanecia em aberto:
quanto de desmatamento provocaria essa mudança de equilíbrio?
A
pergunta era difícil de responder com os modelos usados
até então. "Eles eram aleatórios,
alimentados ou com um cenário extremo --de 100% de
desmatamento-- ou com um total que o pesquisador chutava",
disse à Folha Gilvan Sampaio, climatologista do Inpe
que liderou o novo estudo.
Destruição
gradual
Para atacar a questão, Sampaio e seus colegas usaram
as estimativas de desmatamento produzidas pelo grupo de Britaldo
Soares Filho, da UFMG (www.csr.ufmg.br/simamazonia). "Esta
é a primeira vez que são utilizados cenários
futuros de mudanças no uso da terra que se baseiam
no que realmente vem ocorrendo na Amazônia. Com isso,
podemos analisar como será o comportamento da chuva,
temperatura etc. à medida que a Amazônia é
gradualmente desmatada", diz o cientista do Inpe.
O
modelo também tentou capturar as diferenças
de temperatura e precipitação causadas pela
substituição da floresta por soja ou pasto,
os dois usos mais comuns (e lucrativos) da terra na região.
O
que as simulações em computador mostram é
que o clima começa realmente a mudar quando a taxa
de desmatamento é maior do que 40%.
A
redução mais grave no total de chuvas ocorre
nos meses de verão amazônico (junho, julho e
agosto) e nas simulações nas quais a mata é
substituída por soja. Segundo Sampaio, isso acontece
porque o ciclo anual da soja deixa o solo mais claro, aumentando
a incidência de radiação solar. |