DESMATAMENTO
DEIXA BRASIL ENTRE MAIORES POLUIDORES
06/11/2007
O Estado
de S.Paulo
Destruição
da floresta gera 855 mi de toneladas do gás em 2006;
Brasil só está atrás de EUA, China, Rússia
e Japão
O
Brasil continua entre os maiores emissores de dióxido
de carbono (CO2), o principal gás do efeito estufa,
porque mantém taxas elevadas de desmatamento da Amazônia.
Segundo uma projeção feita pelo especialista
José Goldemberg, do Instituto de Eletrotécnica
e Energia da Universidade de São Paulo, à qual
o Estado teve acesso, o País emitiu 1,141 bilhão
de toneladas em 2006, das quais cerca de 855 milhões
(75%) viriam de mudanças no solo - corte e queimada
da floresta. O valor mantém o País em 5º
lugar (sem contar a contribuição da União
Européia).
A
secretária de Mudanças Climáticas do
Ministério do Meio Ambiente, Thelma Krug, contesta
a informação e diz que o número está
superestimado. Em uma projeção feita para o
Estado, ela afirma que as emissões em 2006 provenientes
do desmatamento da Amazônia girariam em torno de 684
milhões de toneladas de CO2.
Os
cálculos feitos pelos dois cientistas não são
oficiais e usam como base o primeiro e único inventário
brasileiro de emissões de gases do efeito estufa. Ele
foi lançado em 2004, mas apresenta um corte do passado,
uma vez que usa dados registrados entre 1990 e 1994. “Esse
não é um cálculo com valor científico.
Porém, mostra que o problema continua o mesmo”,
afirma Goldemberg. “Se o desmatamento fosse zerado,
o Brasil ficaria na 18ª posição.”
Poucas
nações estão na lista dos maiores emissores
globais por causa da perda de florestas. O outro caso notável
é a Indonésia, que tem derrubado a mata nativa
para plantar dendê e alimentar o mercado europeu de
biocombustíveis. O maior problema dos outros países,
especialmente no Hemisfério Norte, é a geração
de energia com queima de combustíveis fósseis,
como petróleo e carvão.
Segundo
informações divulgadas ontem pelo Secretariado
de Mudança no Clima da Organização das
Nações Unidas (ONU), em Bonn, a emissão
total dos 40 países mais industrializados do mundo
atingiu 18,2 bilhões de toneladas em 2005, apenas meio
bilhão abaixo do nível registrado em 1990.
Pedra
no sapato
Ainda que não concorde com o valor apresentado por
Goldemberg, a secretária considera que o desmatamento
ainda é a principal contribuição brasileira
para o agravamento do efeito estufa, e na mesma proporção
observada 12 anos antes: responde por 75% do total emitido
pelo País. “A proporção é
semelhante à do período 1990/1994”, diz.
Conforme
o inventário nacional, 96% das emissões líquidas
do setor de mudança no uso da terra podem ser creditadas
à conversão de florestas em atividades de agricultura
e pecuária. O desmatamento é uma importante
fonte de emissão porque a vegetação naturalmente
armazena carbono. O elemento é estocado em seus tecidos
devido à fotossíntese, quando o CO2, o gás
carbônico, é absorvido pelas plantas. Quando
são cortadas, esse carbono volta para a atmosfera.
As queimadas emitem, além de CO2, outros gases-estufa,
como o metano (CH4).
Para
Goldemberg, não existe justificativa para que a conversão
da Amazônia em pasto e plantação mantenha
o País entre os maiores emissores do mundo. “Nós
sabemos mais agora sobre essas questões do que há
20 anos”, afirma.
A
secretária de Mudanças Climáticas diz
que o próximo inventário nacional de emissões
será divulgado em 2009, com informações
coletadas entre 1995 e 2000. Ao contrário dos países
desenvolvidos, as nações em desenvolvimento
não têm a obrigação de entregar
relatórios anuais às Nações Unidas.
Além
desse, Krug afirma que o ministério trabalha para entregar,
na mesma época, uma estimativa das emissões
entre 2001 e 2006. “Queremos incluir a matriz da conversão
da terra: o que se perdeu e seu destino, se é uma vegetação
perene”, explica. “O projeto está em andamento,
com contratos já em execução.” |