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O Bolshoi e o corte de cana

23/11/2007
Clovis Rossi

As autoridades educacionais brasileiras deveriam chamar um certo Tião Rocha para ser uma espécie de animador da educação brasileira.

Tião é antropólogo de formação, mas, na vida real, é um desses malucos, benditos malucos, capazes de largar o cargo de professor de universidade (a Federal de Ouro Preto) para ser educador popular.

Qual é a diferença entre ser professor e ser educador? "Professor ensina, educador aprende", responde esse fanático por Guimarães Rosa que acaba de ser escolhido Empreendedor Social 2007, uma parceria entre esta Folha e a Fundação Schwab.

Tião é também uma usina de idéias, parte das quais pode ser acompanhada no caderno especial sobre os empreendedores sociais que o jornal publicou ontem.

O espaço aqui é pequeno demais mesmo para um microresumo de seus projetos. Não se trata do que Sérgio Motta chamaria de "masturbação educacional" não. Tião e a comunidade do vale do Jequitinhonha, a área mais pobre das Minas Gerais, põem os projetos em prática. Vale, de todo modo, ousar reproduzir o conceito básico dele: acompanhar os alunos para ver quais são seus problemas específicos e encontrar solução para eles.

Exemplo concreto: um dado dia, Tião trombou com um garoto excelente no jogo de damas, mas péssimo em matemática. Usou o jogo para dar noções de aritmética ao menino. Funcionou, até porque outro princípio do educador é que se deve aprender brincando.

Brincando, quatro de seus alunos estão no balé Bolshoi, filial de Joinville. "Perder alunos para o Bolshoi, pode. O que não pode é perder alunos para o corte de cana", uma fatalidade no Jequitinhonha, diz Tião. Se todo o Brasil pudesse perder alunos para o futuro, em vez de para o atraso, o país seria imensamente melhor.

crossi@uol.com.br

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