'PARQUES
DE PAPEL' ATRASAM PROTEÇÃO NA AMAZÔNIA
26/08/2007
O Estado
de S.Paulo
Unidades
de conservação ajudam a frear desmatamento,
porém são mal gerenciadas e carentes de estrutura
O
sistema de áreas protegidas da Amazônia precisa
sair do papel para se tornar uma uma rede real de proteção
da biodiversidade, segundo um estudo divulgado hoje pela Fundação
Vitória Amazônica. Caso contrário, dizem
os especialistas, será apenas uma questão de
tempo para que os “parques de papel” se desmanchem
diante das motosserras e das labaredas trazidas pelo desmatamento.
Apesar de o número de unidades de conservação
(UCs) ter crescido muito nos últimos anos, muitas ainda
não passam de uma marca no mapa.
De
um total de 200 unidades federais e estaduais pesquisadas,
apenas 49 (ou 24%) possuem plano de manejo - o documento básico,
produzido em parceria com as comunidades locais, que deve
nortear o propósito e a administração
da área. Além disso, vários dos planos
estão desatualizados com relação à
lei do Sistema Nacional de Unidades de Conservação
(SNUC), aprovada há mais de sete anos.
A
infra-estrutura disponível para proteção
e manutenção das áreas também
é precária. Em 147 unidades estaduais pesquisadas,
apenas 27 dispõem de infra-estrutura mínima,
como bases de apoio, barcos, veículos ou computador.
O que não soa tão surpreendente quando se leva
em conta que 80% não têm um único técnico:
a média entre as Ucs estaduais é de 0,6 funcionário
por unidade. Entre as federais, o índice é de
4 funcionários por unidade.
Considerando
todas as Ucs com dados sobre número de pessoal (67
unidades), cada funcionário é responsável
por 2.300 quilômetros quadrados de floresta. “Não
basta ter dinheiro disponível, tem que ter gente para
executar as ações”, diz o coordenador-executivo
da Fundação Vitória Amazônica (ONG
com sede em Manaus) e co-autor do estudo, Carlos Durigan.
“Quando você tem pelo menos uma pessoa, alguém
que responda pela unidade, alguma coisa acontece.”
Lado
positivo
A
análise, segundo Durigan, não é de todo
ruim. Mesmo sem uma implementação efetiva, o
mosaico de áreas protegidas tem se mostrado uma ferramenta
crucial no combate ao desmatamento. A decretação
de uma área como unidade de conservação
garante ao poder público a titularidade da terra, quebrando
o processo de grilagem que alimenta o ciclo de destruição
da floresta.
A
criação de Ucs em áreas de avanço
do desmatamento (como o oeste do Pará) tem sido uma
das principais estratégias do Ministério do
Meio Ambiente, que desde 2003 quase duplicou a área
de unidades federais na Amazônia. “Mais importante
do que o tamanho é onde elas são criadas”,
diz o secretário-executivo, João Paulo Capobianco.
A
longo prazo, porém, a implementação é
fundamental, alerta o vice-presidente científico e
diretor para a Amazônia da ONG Conservação
Internacional, José Maria Cardoso da Silva. “Nas
áreas onde há pressão, as unidades só
seguram o desmatamento enquanto houver recursos florestais
fora delas”, diz. “Quando não tiver mais
o que tirar do lado de fora, vão tirar do lado de dentro.” |