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O
Brasil e seus rumos:
As lógicas das políticas públicas na perspectiva
socioambiental
”Quando
a população muda muito, com um rodízio permanente,
não há como ter sustentabilidade”
É importante ressaltar que os investimentos realizados na
área de desenvolvimento sustentável são modestos,
muito pequenos em relação aos investimentos em outros
setores. Muitas vezes sua efetividade fica limitada e reduzida pela
pequena escala em que são realizados. É até
mesmo impossível medir seus resultados de forma consistente,
por exemplo, a respeito do que induzem no meio econômico local.
Se houve agora, em maio de 2006, um pacote de subsídios de
60 bilhões de reais para o agronegócio, isso equivale
há 120 anos de todo o investimento de fomento regional para
toda a região amazônica. Hoje, este montante chega
a meros 500 milhões de reais por ano do ponto de vista orçamentário
federal.
Dentro deste contexto, há investimentos no fortalecimento
da capacidade empreendedora nas comunidades, nas pequenas empresas,
nas cooperativas, nas associações no meio rural e
nas associações de assentados. Embora muitos deles
sejam pequenos, dão um retorno muito alto socialmente e economicamente,
criando um tecido econômico que não é apenas
produtivo e sim de consumo, comércio, serviços. Por
exemplo, investimentos na área do manejo florestal, independentemente
das condições gerais de mercado, possibilitam um retorno
expressivo em termos de empregos e de renda para a comunidade local.
Da mesma forma que o desmatamento vai junto com os demais fatores
de degradação, a atividade econômica florestal
tende a ir junto com outros fatores que tendem, se adequadamente
estimulados, a gerar círculos virtuosos na economia local.
Infelizmente quando isso ocorre, fica na escala piloto, ou seja,
insuficiente para atender as necessidades da região. É
o caso de atividades como o manejo do pirarucu na bacia do rio Amazonas,
as polpas de fruta regional, o palmito manejado, o processamento
de óleos, entre muitas outras: foi possível verificar
que investimentos de pequena escala nessas atividades oferecem um
retorno relativamente rápido e fazem uma grande diferença
no meio local. Também há a instalação
de infra-estrutura de pequena escala que esteja ligada a isso, por
exemplo, eletrificação rural, instalação
de capacidade frigorífica, radiocomunicação,
etc.. Em determinadas regiões, próximas ao centro
de beneficiamento, coisas desse tipo fazem uma diferença
grande e acabam possibilitando a fixação da população
no território, assim prevenindo a mudança na composição
da ocupação. Quando a população muda
muito, com um rodízio permanente, não há como
ter sustentabilidade: prevalece a dimensão predatória
da ocupação, porque ela é transitória,
temporária, até esgotar os recursos.
As atividades realizadas em forma piloto ajudam a prevenir a constante
substituição da base populacional, um dos elementos
que diminui o potencial de sustentabilidade da atividade econômica.
Temos resultados efetivos, porém limitados pela escala, porque
se trata sempre de experiências pioneiras. São projetos
de grupos da sociedade civil, ou do Ministério de Desenvolvimento
Agrário, do Ministério do Meio Ambiente, projetos
locais de algum governo estadual. A pulverização e
fragmentação destas iniciativas dificultam a medição
de resultados porque não há uma linha de base em escala
suficiente para apontar seus benefícios.
Algumas entidades ambientalistas contribuem muito para a realização
dessas atividades. Infelizmente, são poucos os casos que
os órgãos públicos conseguem se apropriar do
trabalho da sociedade civil para transformar essas iniciativas em
políticas permanentes. Um exemplo recente está no
plano lançado por este governo para prevenção
e controle do desmatamento na Amazônia juntamente com onze
ministérios. Neste plano havia a descrição
de quatro exemplos de iniciativas da sociedade civil, apontadas
como atividades que deveriam deixar de ser apenas dessas instituições
e passar a funcionar como uma política pública. Isso
não aconteceu em nenhum dos casos, e a gente vê que
na prática, muitas vezes, o governo precisa sempre lançar
algo novo. Eu acho que deveria ser o contrário, pois seria
muito mais interessante anunciar, até em termos de imagem,
que se está perenizando uma iniciativa bem-sucedida que já
deu certo, do que lançar uma coisa nova que não se
sabe se vai dar certo.
Alternativas existem, o que falta é o Estado se apoderar
delas, transformar em políticas públicas e estender
os seus benefícios para um contingente maior. Todos ganham
com isso. Essa dificuldade de incorporar o que vem de fora e a tendência
para sempre de reinventar a roda é uma característica
bastante típica dos governos, independentemente de sua base
política.
“...nós já sabemos, nós tivemos
lá, não precisamos...”
Independentemente disso, não há dúvida que
nos últimos anos não se concretizou uma relação
adequada e saudável entre governo e sociedade civil. O que
mais preocupa é a tendência, que tem sido para pior.
Houve uma fase inicial deste governo em que a maioria das pessoas
que havia assumido cargos públicos achava que não
precisava escutar a sociedade civil porque ela já estava
representada por aqueles que haviam assumido o governo. Por ter
nele muitas pessoas que vinham da sociedade civil, acabou-se confundindo
a história pessoal com as relações institucionais.
Pelo fato de ter uma experiência no âmbito de sociedade
civil, houve uma espécie de tendência a subestimar
a necessidade de conversar e consultar a sociedade. Predominou o
sentimento “nós já sabemos, nós tivemos
lá, não precisamos”, e este foi um erro que
acabou por prejudicar paradoxalmente aqueles setores do governo
que tinham um diálogo mais estabelecido com a sociedade.
A saudável cumplicidade institucional com os interesses difusos
passou a ser percebida como infidelidade política, enquanto,
ao mesmo tempo, a consolidação da incorporação
de interesses particulares era considerada, em outros setores do
governo, fator de modernização e legitimação.
Isso resultou em falta de diálogo qualificado, ou falta mesmo
de qualquer diálogo, com algumas exceções.
Poucas são as oportunidades que a sociedade civil chegou
a conversar com o governo com algum resultado concreto. Desde que
o presidente Lula assumiu, em três anos e meio houve apenas
uma audiência dele com alguma instância do Fórum
Brasileiro de ONGs e Movimentos Sociais para o Desenvolvimento do
Meio Ambiente (FBOMS), em fevereiro de 2006, e ainda de forma improvisada.
O FBOMS começou a solicitar uma audiência formal com
o Presidente da República em outubro de 2003, o que até
agora não ocorreu. Ao mesmo tempo há grupos de interesses
variados que se encontram com o presidente com regularidade (como
indústria, bancos, agronegócio, etc.). Acredito que
isto é resultado de uma visão de que é necessário
conversar com o empresário porque este vai trazer uma posição
e uma contribuição nova, enquanto se assume que aquela
dos movimentos sociais é já conhecida e embutida.
Continua
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