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O
BRASIL E SEUS RUMOS:
AS LÓGICAS DAS POLÍTICAS PÚBLICAS NA PERSPECTIVA
SOCIOAMBIENTAL
O
texto de Roberto Smeraldi* critica o vazio das políticas
públicas para a Amazônia e a aponta a necessidade do
entendimento do desmatamento como um indicador de diferentes dinâmicas
e tendências de ocupação, um dos passos para
que se possa pensar numa nova lógica para o desenvolvimento,
centrado na região e na população local. Boa
leitura!
AMAZÔNIA
“O que temos hoje é uma espécie
de vazio”
Há
vários anos falta uma política de desenvolvimento
para a Amazônia. As antigas, como aquelas vinculadas à
Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (Sudam),
se esgotaram. Já as novas, há tempo em fase de gestação,
não se traduziram ainda em planos concretos. Assim, o que
temos hoje é uma espécie de vazio, em que porém,
obviamente, as coisas não deixam de acontecer e os estímulos
que o Poder Público exerce por meio de iniciativas setoriais
são, na maioria dos casos, contraditórios.
“...um plano que em parte não saiu do papel,
e em parte nem sequer da caneta.”
No atual governo, houve a tentativa de conceber o Plano Amazônia
Sustentável (PAS), que está longe de ser implementado:
em parte, ele não saiu do papel, e em parte nem sequer da
caneta. No papel, existe apenas um bom diagnóstico e algumas
genéricas diretrizes, já na caneta ficaram os instrumentos
e recursos para fazer o plano funcionar, catalizando as políticas
públicas setoriais. A idéia era muito boa, inclusive
aprimorada pelo cuidado de envolver os estados no desenho, evitando
assim um produto apenas de âmbito federal. Mas o que temos
hoje, depois de três anos, é um documento de cunho
quase acadêmico, não amarrado a qualquer ação,
longe de gerar uma política pública. Enquanto isso,
a região tem sido objeto de iniciativas setoriais avulsas
que refletem interesses isolados de cada lobby. Isso acontece em
setores como os de energia - onde continua prevalecendo a visão
de uma Amazônia barata que resolve os problemas do Brasil
rico - de transporte - onde os investimentos para atender demandas
externas prevalecem sobre aqueles de interesse local - de agricultura
- onde foi reforçada a política de subsídio
para manter em vida grandes empreendimentos endividados - de pesquisa
- onde a forte demanda da comunidade científica nacional
por um “povoamento científico” da região,
visando arranjos locais de avanço tecnológico, foi
ignorada.
Tais políticas setoriais, na contramão dos conceitos
do PAS, são aquelas que no final, cada uma por si, refletem
o antigo intuito de preencher um suposto vazio demográfico,
seja com gente, seja com gado. E não é um caso o explosivo
crescimento do rebanho na região, nos últimos cinco
anos. O PAS requeria uma atitude diferente e coordenada. A nova
Sudam, os incentivos e as estradas deveriam estar inseridos em uma
nova lógica que supostamente visaria um desenvolvimento centrado
na região, na população local e nas possibilidades
de fixar a população. Possibilitando, desta maneira,
que a comunidade local se aproprie de seus territórios do
ponto de vista econômico e até mesmo legal, no caso
do enorme passivo da situação fundiária. Para
que isso aconteça é necessário que haja uma
política coordenada. Hoje as políticas setoriais,
muitas vezes, se sobrepõem e competem pelo mesmo território.
“É impossível atribuir a uma atividade
em si a responsabilidade pelo desmatamento, elas funcionam como
um time de futebol”
Em relação aos fatores de degradação
da Amazônia, não há dúvida, existe um
elemento que é simbólico e resume em si a maioria
dos demais fatores: o desmatamento. É interessante como o
desmatamento é um eficaz indicador das diferentes dinâmicas
e tendências, como a expansão da fronteira agropecuária,
a especulação e grilagem, os conflitos e violência
no campo, a malária (que por sinal surpreendentemente recrudesceu
nos últimos anos). Todos esses fenômenos andam juntos
com a distribuição do desmatamento, que portanto é
ao mesmo tempo um fator de degradação em si e um indicador
de outros. Esclarecido isso, um equívoco típico nasce
quando se pretende atribuir a responsabilidade do desmatamento a
uma ou outra atividade. E isso gera muita confusão, conceitual
e prática. É impossível quantificar quem ou
o quê são responsáveis pelo desmatamento, ou
seja qual a fatia de culpa de cada suposto vilão, por exemplo
quanto foi originado pela pecuária, quanto pela extração
da madeira, quanto pela agricultura familiar, quanto pela grilagem
de terra, quanto pela soja, etc...
Na
realidade, existe um processo onde todos esses fatores citados agem
de maneira sinérgica, em um mix que muda de acordo com as
especificidades de cada sub-região. É como num time
de futebol: é obviamente preciso entender que o gol não
é um produto apenas do artilheiro e sim do conjunto, onde
tem quem defende, quem arma a jogada, quem bate o escanteio, quem
fica no banco orientando, enfim é isso tudo que produz o
resultado. Assim, acontece também com o desmatamento: se
tivesse, por exemplo, apenas a soja, ou apenas a pecuária,
elas não seriam capazes de gerar dinâmicas de desmatamento
tais como aquelas que temos hoje, pois nenhum desses fatores, sozinho,
tem força para gerar uma conversão sistemática
e em grande escala. Se não tivesse havido antes uma especulação
fundiária, uma extração madeireira predatória
que financiou a abertura de pequenas estradas, um arroz, uma pecuária
extensiva... não haveria condições para a chegada
da agricultura mecanizada. Por isso temos de gerar políticas
que não alimentem esta cadeia e seus anéis.
A maneira em que as diferentes causas interagem acelera esse processo,
pois há um combustível para essa máquina funcionar:
trata-se da situação fundiária da região,
que permite uma especulação em decorrência da
falta de titulação, seja por parte dos posseiros tradicionais
que lá estão, seja, paradoxalmente, por parte do Poder
Público em relação a suas próprias terras.
Menos da metade da terra da Amazônia está em unidades
de conservação, terras indígenas, militares
e áreas efetivamente privadas. Mais da metade é constituído
por terras públicas das quais, porém, o Poder Público
não possui título definitivo: elas não estão
registradas na Secretaria do Patrimônio da União, por
exemplo, no caso das terras federais. São as chamadas terras
devolutas que, embora públicas, não estão sob
dominialidade efetiva da União. Essas terras representam
o principal combustível para que os processos econômicos
de conversão do uso do solo, de florestal para não
florestal, possa prosperar. Isso se dá em razão da
expectativa e da oportunidade de valorização da terra,
na hora em que ela passar da condição de devoluta
para uma pretensão de posse, e sucessivamente da pretensão
de posse para vários degraus de ocupação ilegítima,
embora progressivamente mais garantida. É uma espécie
de lavagem, que funciona inclusive com cadeias de dominialidade
forjadas por cartórios e validadas por juízes. Isso
é muito importante quando se analisam os fatores de ordem
econômica que estão relacionados com os commodities,
a mineração, a pecuária, a agricultura, a energia,
entre outros. Se não houvesse o que chamo de dumping fundiário,
as taxas internas de retorno de tais atividades seriam profundamente
diferentes, e em muitos casos incapazes de competir com as atividades
florestais.
Continua
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