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Quilombo
Mata Cavalo - Crônica
HERANÇA
POR LIVRAMENTO
por Bruno Moreschi

Seu Mulato é um senhor de 102 anos que
luta por uma imensa área disputada há mais de
um século por brancos e negros
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Sentado
em um caixote de papelão, sob sol quente, às margens
da rodovia em busca de uma carona até a cidade, seu Mulato
é um senhor de 102 anos que luta por uma imensa área
do tamanho de mil lagos do Ibirapuera, disputada há mais
de um século por brancos e negros. Apesar da pele negra
rasgada, ele ainda está lúcido, lembra das datas
de nascimento dos filhos e diz em tom de desafio que, se for
preciso, consegue fazer outros tantos. Documento vivo daquele
conflito, ele é filho dos escravos que, em 1883, receberam
as terras do Quilombo Mata Cavalo, 37 quilômetros de Cuiabá.
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A
latifundiária Anna Tavares doou de papel passado os 15 mil
hectares aos negros libertos, mas, como eles não tinham experiência
para os negócios, logo se endividaram. Assim, velada, a escravidão
voltou.
Em
Nossa Senhora do Livramento, a cidade mais próxima, a mobilização
dos descendentes de escravos já produziu seus primeiros resultados.
Há 50 anos, negro não podia ter terra em seu nome,
pois a política local era dominada pelos brancos latifundiários.
Hoje, negro até almoça com o prefeito: dois são
finalmente vereadores na Câmara Municipal. Um deles é
Ailton Arruda, 40 anos, 105 quilos, neto do seu Mulato, e que mal
cabe no banco da frente do seu Vectra 96.
O vereador Ailton dirige em direção à casa
de seu Mulato, onde está grande parte dos seus familiares,
os porta-vozes de toda aquela gente. No casarão antigo, lotado
de santos por todos os lados, a família vive de maneira simples,
criando galinhas, porcos, patos e marrecos. No terraço, está
o único telefone público dos negros da região.
É lá que a filha do seu Mulato liga toda semana para
o advogado e fica sabendo em que pé anda o rolo judicial
das terras.
Além dessa missão, Gonçalina de Almeida também
é responsável por guardar as cópias da papelada
que corre em várias instâncias judiciais. No seu baú
está o exemplar do Diário Oficial da União,
de 10 de fevereiro de 2006, que demarca, aprova e reconhece o território
negro. Ela guarda também a vitória temporária
dos brancos: trata-se do documento do Ministério Público,
que embargou, por falta de documentação, o processo
de oficialização definitiva da área.
É terra que não acaba mais, não pense que termina
ali, no casarão do seu Mulato. Vai muito além das
janelas grandes e azuis, comidas pelo tempo. Chega até um
local que seria um mato só, se não houvesse duas tendas
forradas de palha seca. Ali está a escola das 113 crianças
que vivem no Mata Cavalo. A professora Eva é quem cuida da
molecada. Seu e-mail não carrega seu sobrenome, mas, sim,
sua condição: evaquilombola@yahoo.com.br.
Há poucas semanas, ela comprou um carro com o dinheiro que
ganhou de um processo contra um fazendeiro que a chamou de negra
safada. “Os brancos não aceitam que agora lutamos pelos
nossos direitos. Queimaram o original da carta de posse só
para atrasar ao máximo a troca de poder.”
A denúncia é repetida por todos os negros entrevistados.
Nada comprovado. O que há são apenas quatro fatos.
Um: a carta original de mais de 121 anos assinada pela senhora Anna
Tavares estava no cartório da cidade na pasta de número
43. Dois: justamente essa pasta foi queimada em um incêndio
de causa misteriosa — sobrou apenas a cópia no baú
da Gonçalina. Três: a pasta anterior e a seguinte não
sofreram um único arranhão. Quatro e último:
o dono do cartório é Carlos Maciel, homem branco que
vai perder suas terras se o Mata Cavalo for oficializado.
No cartório de Nossa Senhora do Livramento quem nos recebe
é Kilza Maciel, a filha do fazendeiro. Ali não tem
mato, calor, palha seca no teto. Tudo é clean e com clima
agradável de ar-condicionado. Nas suas mãos está
sua dissertação de mestrado em Direito, recentemente
apresentada na Universidade de Várzea Grande, que tem como
tema o conflito agrário na região. Grande parte do
trabalho é uma reunião de anexos, como a carta de
apoio aos fazendeiros assinada pelo senador Álvaro Dias e
as notícias do Boletim do Sindicato Rural de Nossa Senhora
do Livramento – alguns fazendeiros reclamam do constrangimento
em ter de viver ao lado dos negros.
Kilza afirma que sua família nada tem a ver com o sumiço
da carta de doação das terras. Em nenhum momento coloca
em dúvida a existência do documento. Nega, porém,
a legitimidade do papel com o argumento de que, em 1883, “negro
não era gente”. Depois, emenda que não se considera,
de maneira alguma, uma pessoa racista. “Meu pai é um
branco trabalhador que não agüenta mais essa pressão
toda”, explica.
Há cinco gerações os negros do Mata Cavalo
tentam provar aos brancos que são gente como eles. Mas, a
cada vez que chegam mais perto de conseguir, a reação
branca cresce e o desafio se mostra gigantesco, bem maior que a
área do Mata Cavalo, mais antigo que os 102 anos do seu Mulato.
É tão complicado quanto apagar um Brasil arcaico que
ainda persiste nos dias de hoje.
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