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GRANDE
SERTÃO DO PARQUE É BEM MENOR QUE O DO LIVRO
Marcos Sá Correa*
Nos 50 anos de Grande Sertão: Veredas, não custa lembrar
que ele não é só o romance de Guimarães
Rosa, mas também um parque nacional que, não por acaso,
tem seu nome. Mas cuidado para não estragar a festa, comparando
o parque com o Grande Sertão do livro, o "sem tamanho",
que estava "em toda parte", de Minas a Mato Grosso, de
Goiás à Bahia, e ficava "onde os pastos carecem
de fechos" e onde "um pode torar dez, quinze léguas,
sem topar com uma casa". Tão desmedido em sua imensidão
agreste que nele criminoso vivia "arredado do arrocho da autoridade".
Mudou muito o País nesse meio século. Arredados do
arrocho da autoridade os criminosos vivem é no meio das grandes
cidades. E, no mapa, o Grande Sertão cabe oficialmente na
mancha verde que se encravou como parque entre Minas e a Bahia.
Visto assim, parece mofino. Está entregue a dois funcionários
do Ibama. Mas criá-lo foi uma luta como as de Riobaldo Tatarana.
Entre valentias e negaças, levou-se pelo menos três
anos até o primeiro decreto. Foi obra do governo, mas trabalho
de uma ONG, a Funatura, que providenciou os argumentos, a localização
e até as verbas, além de batizá-lo com título
de obra literária.
O parque é de 1989. Portanto, 23 anos mais jovem que o livro.
Na ocasião, presidia a Funatura a engenheira agrônoma
Maria Tereza Pádua, trazendo do serviço público
um saldo de reservas que somaram 8 milhões de hectares só
na Amazônia, todas em seu currículo. Na ONG, Maria
Tereza só contratava quem tivesse atravessado, com gosto,
as 538 páginas de Grande Sertão: Veredas. Era leitura
obrigatória na equipe que tentou chegar antes da soja, dos
fornos de carvão vegetal e dos eucaliptos aos últimos
cenários onde a paisagem de Guimarães Rosa ainda era
reconhecível. Um dia, Maria Tereza perdeu-se lá dentro.
Dormiu ao relento. Para comer e beber, só tinha a cachaça
do cantil. E passou o resto da vida falando da noite inesquecível.
Tratava-se de fazer a primeira unidade de conservação
nos Gerais. Ou seja, os confins do cerrado onde Guimarães
Rosa catara anos antes o arsenal de palavras mágicas que
dão ao Brasil de suas histórias uma toponímia
digna de país imaginário - Urucuia, Liso do Suçuarão,
Andrequicé, Traçadal. Não faz muito tempo,
Dieter Heidemann, um alemão que se fez sertanejo como professor
de Geografia da USP, bateu os mesmos ermos trilhados pelo escritor
em 1952 com o vaqueiro Manuelzão. Onde um encontrara veredas
de "belo verde-claro, aprazível, macio", o outro
topou com cupinzeiros, anunciando "veredas mortas"e a
"secagem dos buritizais".
"A 'mãe das águas' sofre perdas irreparáveis",
concluiu Heidemann. "Aliás, a morte dos riachinhos acompanha
o viajante." O que não deixa de ser uma forma de perguntar
de onde Guimarães Rosa iria tirar atualmente um Grande Sertão:
Veredas, se o pouco que sobrou dele não estivesse mais ou
menos guardado, como relíquia, num parque nacional que até
hoje mal saiu do papel, nasceu com 84 mil hectares e em 2004 chegou
aos 230 mil hectares atuais a duras penas. Quase se perde para sempre
dois anos atrás na Casa Civil do ministro José Dirceu.
Menos de 20% de suas terras pertencem ao governo. Falta-lhe estrutura
para receber visitantes. Sua folha de arrecadação
nunca passou de um renque de colunas vazias, como um buritizal seco.
E, no entanto, faz parte de um Brasil que Guimarães Rosa
conservou para sempre. Onde "se viam bandos tão compridos
de araras, no ar, que pareciam um pano azul ou vermelho, desenrolado,
esfiapado nos lombos do vento quente". Onde, "de repente,
com a gente se afastando, os pássaros todos voltavam do céu,
que desciam para seus lugares, em ponto, nas frescas beiras da lagoa".
Ou onde "as pessoas não são sempre iguais, ainda
não foram terminadas".
Ele existia de fato, meio século atrás, quando Riobaldo
Tatarana já avisava que, dos Gerais, "de legítimo
leal, pouco sobra, nem não sobra mais nada"? Vá
lá, no Grande Sertão de Guimarães Rosa misturava-se
"o conteúdo geográfico bem nítido"
com "outros conteúdos vagos e simbólicos",
avisou o crítico Paulo Ronai no prefácio da edição
de 1956. Mas há 50 anos todos eles pareciam verossímeis.
E hoje, Grande Sertão só no livro.
*Marcos Sá Correa - Jornalista e editor do site O
Eco
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